O álbum 'Grasa de Las capitales' do grupo Serú Girán (1979), um dos ícones do rock argentinoTexto de Fábio Pires
Pesquisador musical e colecionadorSomos egoístas ?? Somos insulares como os norte-americanos ?? Desconsideramos o que é produzido no restante da América do Sul ?? As respostas à essas perguntas são bem complexas, à meu ver. Devido à extensão de nosso país e à língua portuguesa, que difere da de nossos irmãos latinos em nossa região, acho que de certa forma a resposta é 'sim' para essas perguntas. E você, o que acha ??
Estou começando a primeira parte dessa pesquisa sobre o rock sul-americano, que abrangerá depois a música popular, por simples gosto pessoal, para que possamos debater o que foi feito nas décadas de 50-80, mais especificamente, e tentar trazer à tona um assunto que não é muito percebido por nós, tamanha nossa conveniência como nação continental e de, talvez, sempre acharmos que somos auto-suficientes e independentes por termos uma cultura riquíssima, e assim o é, mas que ao mesmo tempo 'damos as costas' à um outro lado da paisagem cultural latino-americana. Esse desdém provoca o desconhecimento da cultura alheia, a não-informação e o não-interesse e, por fim, a ignorância.
Sou professor de Inglês, mas consciente de nossas mazales de interdependência com os EUA, não me sinto um norte-americano, minha vertente linguística é a britânica, isto é, a origem da língua, o lado europeu da coisa, não menos influenciado pelo 'British way of life', mas não me sentindo um europeu britânico, todavia, muitos colegas de profissão, por enaltecer a nação norte-americana esquecem seu lado brasileiro, latino-americano, às vezes totalmente, e nem é preciso ser um profissional da língua para que isso aconteça: vejamos os milhões de casos de brasileiros que detestam o cinema nacional, a comida brasileira (observem os
fast-foods lotados), a música chamada MPB, principalmente hoje em que muitos artistas do passado foram esquecidos, para que se voltasse para um lado mais 'pop' do estilo (uma expressão em inglês usada aqui, olhem só !!), a influência da linguagem oral e escrita e seu uso 'justificado' por ser 'chique'. Essa incorporação de uma cultura que substitui a nossa verdadeira é muito aparente...Pelo menos aqui no Brasil.
O que quero mostrar é que com relação aos países sul-americanos isso se dá numa tendência semelhante à atitude tomada pelo norte-americano em relação ao resto do mundo. Mal conhecemos a geografia argentina, chilena, uruguaia ou paraguaia, por exemplo, e quem dirá o restante da criação artística desses países como a música, o teatro ou a literatura. Mal sabemos falar a língua espanhola. Achamos que sabemos. E somos ridicularizados por eles por isso. Somos 'estranhos no ninho cultural' do hemisfério sul.
Chegando onde eu queria, esse trabalho quer mostrar os grupos de rock que fizeram história em países como Argentina, Chile e Uruguai, por exemplo, mas alertando que a criação artística-musical se deu em todos os países sul-americanos num mesmo nível ou até mesmo superior à nossa criação musical brasileira, se levarmos em conta o
rock.
Meu objetivo é, dentre outros :
- Reconhecer que não somos apenas nós brasileiros que temos música
rock. Baixo, bateria, guitarra e vocal também são conhecidos por nossos vizinhos sul-americanos.
- A música de nossos vizinhos não é feita apenas de Carlos Gardel, Mercedes Sosa (que faleceu nessa última semana) ou
tango argentino ou até mesmo o
candombe uruguaio
- O
rock feito na Argentina, Chile e Uruguai, principalmente, teve um grande reconhecimento em toda a América do Sul, mas infelizmente não tivemos e não temos acesso à ele, pois não conhecemos artistas dos outros países da mesma forma que conhecemos os ingleses e norte-americanos. O erro é nosso.
- O
rock nos países que citei existe desde o final dos 50 e teve seu auge nos anos 60,70 e 80 mais precisamente, o que concidiu com o estilo ter estourado também nos 'países de origem' como EUA e Inglaterra e toda a revolução de costumes que envolveu aquela época. No Brasil tivemos a
Jovem Guarda nos anos 60 e em outros países tivemos movimentos semelhantes aos vividos aqui, e tão intensos quanto.Com toda a certeza, caros leitores.
Quero destacar:
Algumas bandas chilenas dos anos 60:
Los Larks com os álbuns ‘A Go-Go’/ ‘The Larks Sound Go-Go’, Los Macs, Los Jockers, Los Beat 4, Los Picapiedras, Los Sicodélicos, Amigos de Maria, Congreso, Tumulto entre outras...
Bandas e artistas argentinos dos anos 60-80(contando com a colaboração de pesquisa do grande colecionador Marco Gonçalves):
Manal, Los Gatos, Pappo’s Blues, Aeroblus, Almendra, Billy Bond Y La Pesada, Kubero Díaz, Arco Iris, La Cofradía De La Flor Solar, Alma Y Vida, Tanguito, Miguel Abuelo, Vox Dei, Sui Generis, Pastoral, Pescado Rabioso, Invisible, Luis Alberto Spinetta, Spinetta Jade, Color Humano, Aquelarre, León Gieco, Moris, Nito Mestre Y Los Desconocidos de Siempre, Serú Girán, Charly García, David Lebón, Andrés Calamaro, Polifemo, El Reloj, Crucis, Espíritu, La Máquina De Hacer Pájaros, Orion's Beethoven, Los Redondos, Soda Stereo, Sumo, Divididos, Los Abuelos De La Nada, Babasónicos, Memphis La Blusera, Los Ratones Paranoicos, Riff, Rockal Y La Cria, Montes, Los Fabulosos Cadillacs, e por aí vai.
Do Uruguai dos anos 60-80 temos bandas importantes que são Los Shakers, Los Mockers, Psiglo, Dias de Blues, Opus Alfa, El Sindykato, Tótem, El Kinto, Los Bulldogs, Los Moonlights, Los Delfines, Los Killers, Hojas, Dino, Los Estómagos entre outras...
Vou citando o trabalho de várias bandas no próximos posts, grupos que se influenciaram da mesma forma nas décadas como fomos influenciados por
Elvis, Little Richard, Beatles, The Rolling Stones, o
punk da década de 70, o
new wave e
Heavy Metal dos anos 80 . Tudo, absolutamente tudo que tivemos no Brasil como expressão musical do jovem, sobretudo, aconteceu nos países sul-americanos. Espero que tenham gostado desse primeiro esboço e conto com as sugestões dos colegas sobre informações, elogios e críticas sobre o assunto.